A RELAÇÃO DO TEMPO E SUA PERCEPÇÃO

“A temporalidade é o ápice da fenomenologia da percepção.” A temporalidade, em Ser e tempo, também cumpre um papel de destaque nesta obra, visto que aponta o tempo como o fundamento para o sentido do ser e do mundo. 

Na percepção, temos ela caracterizada pelo fato de ter diante de si seu objeto em carne e osso. Por isso, Husserl a considera um ato intuitivo privilegiado, uma intuição originária.

Husserl pergunta-se se é necessário distinguir-se entre os “atos imanentes” (os atos qua “objetos” no tempo imanente) e a consciência constituinte do tempo (o fluxo que constitui todos os objetos imanentes, incluindo-se aqui os atos intencionais).

A questão a qual ele responde afirmativamente. Para Husserl, toda percepção é em si algo que é constituída como um objeto que aparece na consciência do tempo original. Por isso, é necessário estabelecer-se que a percepção não é, por si só, um ato constituinte, mas que a fundação constituinte é dada pela consciência interna do tempo. 

Dessa forma, se tomarmos a percepção de um objeto temporal como um som, podemos nos perguntar se essa percepção é, em si, também um objeto imanente, se ela deve ser internamente percebida, e se não estamos sendo ameaçados por um regresso infinito.

HUSSERL E A PERCEPÇÃO DO TEMPO

Husserl segue por afirmar que é necessário distinguir entre a percepção de um tom imanente e a consciência original na qual a percepção constitui-se como unidade temporal. 

Entretanto, ele também afirma que uma percepção é uma ocorrência no tempo imanente e que essa duração coincide com a duração do tom imanente percebido. 

Da mesma forma, como o tom é um objeto que persiste no tempo imanente (daí ser chamado de objeto temporal, o que, pela definição de Husserl, é todo objeto que apresenta uma duração), também a percepção do tom é um objeto que persiste no mesmo tempo. 

Há uma correlação entre ambos os objetos e ambos são constituídos pela mesma consciência interna do tempo; o modo de ser da percepção é exatamente o modo de ser de seu correlato. 

De fato, o processo primário é constituído como processo da mesma maneira que o tom é constituído como processo.

A questão de como as experiências são construídas como objetos temporais é, portanto, equivalente à questão de como os seus correlatos noemáticos são constituídos eles mesmos como objetos temporais.

Dentro do projeto fenomenológico, portanto, a percepção e seu objeto são constituídos, para a consciência, pelo mesmo processo – daí que, na maioria das vezes, a duração objetiva de um objeto temporal coincida com a duração de sua percepção. 

Na realidade, isso nem sempre é verdade. Daí também que um mesmo processo de temporalidade subjaz a percepção de durações e a duração dos processos.

Podemos afirmar, ainda, que a teoria da temporalidade de Husserl é mais próxima do que hoje sabemos acerca da temporalidade da consciência.

Concluindo, para Husserl, toda percepção é em si algo que é constituída como um objeto que aparece na consciência do tempo original. Por isso, é necessário estabelecer-se que a percepção não é, por si só, um ato constituinte, mas que a fundação constituinte é dada pela consciência interna do tempo.

Gostou do artigo? Comente, compartilhe e envie uma mensagem para que juntos possamos estudar este e mais assuntos. 

Forte abraço e até o próximo conteúdo.

Leia também: SÍNTESES PASSIVAS E A FENOMENOLOGIA DO CORPO

SOBRE O AUTOR

BENÍCIO FILHO

Formado em eletrônica, graduado em Teologia pela PUC SP e Filosofia pela Universidade Dom Bosco. Mestre pela Universidade Metodista de São Paulo na área de Educação, MBA pela FGV em Gestão Estratégica e Econômica de Negócios. Pós-graduado em Psicanálise pelo Instituto Kadmon de Psicanálise. Atua no mercado de tecnologia desde 1998. Fundador do Grupo Ravel de Tecnologia, sócio da Core Angels Atlantic (Fundo de Investimento Internacional para Startups). Sócio fundador da Agência Black Beans e sócio fundador da Atlantic Hub e do Conexão Europa Imóveis ambos em Portugal. Atua como empresário, escritor e pesquisador das áreas de empreendedorismo, mentoring, liderança, inovação e internacionalização. Em dezembro de 2019, lançou o seu primeiro livro “Vidas Ressignificadas”. Em dezembro de 2020 seu segundo “Do Caos ao Recomeço”, e em janeiro de 2022 o último publicado “ Metamorfose Empreendedora”.

Construir conhecimento só é possível quando colocamos o aprendizado em prática. O mundo está cansado de teorias que não melhoram a vida das pessoas. Meus artigos são fruto do que vivo, prático e construo.