A BUSCA PELO SENTIDO – QUINTO SINAL

A liderança não está em crise. O que está em crise é nossa humanidade. Mas nossa humanidade depende das lideranças para que seja aberta uma nova possibilidade.

Claro que a liderança de nossas vidas depende apenas de nós. Este por sinal é um enorme desafio. Analisando historicamente como chegamos até aqui enquanto movimento humano, as lideranças sempre influenciaram de forma definitiva os rumos da nossa espécie.

O que gostaria de aprofundar neste artigo, lembrando que ele é o último de uma série que percorremos os cinco sinais da queda da liderança tradicional, é que ao chegarmos ao topo do monte desde que não pretendamos nunca exaurir o tema, mas sim iniciá-lo é uma grande questão.

A busca pelo sentido é o que hoje torna a nossa geração uma geração sem propósito. Sobre esta questão, preste atenção nos pontos que irei elencar agora.

A ERA SEM PROPÓSITO

Atingimos na média a maior expectativa de vida da história, mas isso necessariamente não mudou como reconhecemos a longevidade como sabedoria. Pelo contrário, ignoramos esta sabedoria acreditando que o digital é a resposta para tudo.

Negligenciamos os sinais de esgotamento dos recursos da Terra e assistimos a maior aniquilação de especiais sem isso mudar o nosso comportamento quanto a natureza. Continuamos vivendo como deuses.

Humanizamos pets a uma qualidade de vida que muitos destes animais têm mais investimento em suas vidas do que habitantes de países pobres.

Em um estudo recente, um pet de países ricos pode chegar a custar dez vezes o PIB per capita de um cidadão do continente africano.

Nossos jovens em países como o Brasil, Estados Unidos, China e Europa devido à falta de perspectivas, vivem como se o mundo não mais existisse.

A velha máxima do viver um dia como se fosse o último não demonstra nesta faixa de idade o prazer por viver, mas a desvalorização da vida.

Podemos ainda dizer que estamos diante de uma geração do trauma. Marcados pela inércia dos nossos líderes e pela pandemia, não conseguem enxergar a esperança de um mundo diferente.

Poluição dos mares, destruição das florestas, derretimento das áreas geladas e pobreza são temas que cada vez mais ficam distantes dos tops trends das redes sociais.

Em uma era em que fazer dancinhas ganha mais dinheiro do que pensar, podemos realmente refletir se ainda existe esperança.

Mas isso não para por aqui. Chegar à conclusão que mais da metade da terra é capaz de parar suas atividades para assistir 24 bilionários jogando futebol e um país que vive do petróleo, destruindo ecossistemas e criando ilhas artificiais, jogando dinheiro aos ventos e mares em nome do poder e ganância realmente pode evidenciar que perdemos o rumo.

Uma era é definida pelas mudanças que é capaz de impor, nossa era ainda não disse por que vivemos. Temos a chave na mão para abrir ou fechar as portas da mudança.

Porém, tenho às vezes a sensação de que nosso medo congela nossas ações e impõe uma cegueira estranha, digna dos piores momentos da Idade Média.

As redes sociais e a revolução digital literalmente nos levaram de volta à Caverna de Platão, onde o filósofo apresenta em sua obra a República, o homem que dotado do medo do novo se esconde na caverna fazendo sua análise do mundo a partir de uma pequena fresta de luz.

EXISTEM SINAIS DE MUDANÇA, MAS ELES SÃO MUITO TÍMIDOS, SERÁ QUE AINDA TEMOS TEMPO?

Os sinais de mudança existem e isso não pode ser negado. Do movimento ambientalista aos movimentos espirituais que valorizam a Terra como mãe, os exemplos são muitos.

O veganismo como modelo de vida reduzindo o consumo de carne também se destaca como relevante. Novas formas de viver em cidades mais sustentáveis, como melhores modelos de distribuição de rede são possibilidades.

Casos como no Brasil do movimento nas favelas de São Paulo comandados pelo Edu Lira também se destacam como formas de questionar o atual modelo, criando novas abordagens a problemas quase eternos.

A tecnologia e a ciência têm hoje ferramentas e conhecimento para resolver quase todos os problemas do mundo. Mas, porque os recursos continuam sendo empregados onde não fazem sentido?

Ver bilionários comprando redes sociais por poder ou ainda criando missões para Marte, contribuem com a reflexão que parecemos mais cegos do que sábios.

Nosso tempo é curto, pois apenas o aquecimento global preconizado nos painéis sobre o clima  evidenciam que temos menos de dez anos para mudarmos radicalmente nosso modo de viver.

Então, por que não mudamos se nosso tempo é curto assim? Por que continuamos ignorando os sinais?

Por que líderes que não representam nossa humanidade continuam sendo eleitos, apoiados e enriquecidos?

Leia também: LIDERANÇA E AÇÃO: QUARTO SINAL

A NOVA LIDERANÇA NASCE DOS VALORES QUE IGNORAMOS

A nova liderança nasce de valores que ignoramos. Por centenas de anos, negligenciamos o feminino dando a força do masculino o poder sem limites.

De movimentos religiosos que apoiam este poder a demonstrações públicas de desvalorização do feminino, jogamos para segundo plano quando muito a inteligência e a sabedoria que levou a humanidade ao patamar que hoje conhecemos.

Foram as mulheres em sua sabedoria e acolhimento que nos primórdios da humanidade ajudaram os homens caçadores a articularem seus grupos a grupos que cooperavam e não guerreavam.

Mais tarde na sociedade dos catadores e coletores isso ainda no início do processo de sedentarização as mulheres ajudaram de forma fundamental no início da agricultura.

Em outro movimento que talvez muitos desconheçam foram as mulheres no início do cristianismo que construíram e lideravam povos e cidades com valores muito próximos aqueles que Jesus propagava.

Mas a caçada a elas sempre foi implacável. De condenação a fogueiras a enforcamentos, toda a sabedoria das mulheres por centenas de anos foram alvos de todos aqueles que jamais queriam deixar que elas dividissem o poder.

Em nome do poder do masculino, toda a opressão deveria ser dirigida às mulheres. A ignorância desta força inclusive no masculino está custando nossa existência.

A ganância é forte propulsora dos homens assim como o poder e o sexo. Para os homens, que têm no sexo sua maior demonstração de força, afinal, é por ele que deixam sua descendência, seus desejos e necessidades escravizam a séculos mulheres.

O rompimento com esta barbárie não é mais uma questão social. O protagonismo do feminino é uma questão existencial.

Simone de Beauvoir, irá dizer que “Não se nasce mulher: torna-se.” Essa frase corrobora sua tendência existencialista, cuja existência precede a essência, essa última sendo algo que se constrói durante a vida.

Em sua obra fundamental, o livro O Segundo Sexo (1949), a filósofa desenvolve as bases do pensamento feminista do século XX. Ela critica o pensamento tradicional que associa o ser humano ao masculino, relegando à mulher um papel de subalternidade, como seres humanos de segunda classe.

Reconhecer o feminino é o ponto de partida para a nova liderança. A liderança ressignificada. Essa sim, é o quinto sinal inegável da possibilidade que temos de reconstruir nossa humanidade.

Durante os sinais que percorremos, não deixamos de olhar o feminino, mas construímos acima de tudo as condições para que você o compreenda como possibilidade.

Quero neste momento, convidar você a compreender melhor o que quero dizer com uma nova humanidade onde o feminino tem protagonismo.

O FEMININO NO CENTRO, RESGATA NOSSA HUMANIDADE E APRESENTA UMA NOVA POSSIBILIDADE

Não estamos falando apenas que as mulheres precisam urgentemente ter seu protagonismo alinhado ao mesmo dos homens.

Estou dizendo que inclusive nós homens, precisamos entender como o nosso feminino é a melhor resposta para um novo modelo de liderança que busca nos valores femininos encontrar o propósito perdido, bem como o próprio sentido da vida.

A liderança ressignificada parte de valores como acolhimento, escuta, amorosidade, partilha e compromisso.

Não podemos mais caminhar individualmente. No plano individual, não mais será possível pensarmos apenas em nossos projetos.

Tanto os problemas pessoais como os problemas globais, passam por compreendermos que devemos trabalhar juntos.

O individualismo que marcou a liderança em que o homem foi o protagonista apenas criou os abismos que já conhecemos. A escuta do outro e o acolhimento do diferente deve originar a liderança que o mundo urgentemente precisa.

O feminino, gera vida, cuida e educa. Dele, a escuta é latente, assim como o carinho e o amor que conforta.

A mãe terra clama pela força do feminino no resgate da humanidade perdida. Como começar? Bem, é mais simples do que você imagina.

Praticar os valores femininos como descrevi ao longo dos cinco sinais desta série de artigos, tornaram você alguém com uma abertura ao novo, acolhimento e escuta dos seus sentimentos.

A transformação começa por nós, mas não se esqueça que o tempo é curto. Não é mais possível esperar que o outro faça o que eu já deveria ter feito. 

Mande seu comentário, interaja comigo, juntos construiremos uma nova liderança.

Forte abraço. 

AUTOR:

BENÍCIO FILHO

Formado em eletrônica, graduado em Teologia pela PUC-SP, com MBA pela FGV em Gestão Estratégica e Econômica de Negócios, pós-graduado em Vendas pelo Instituto Venda Mais, Mestrando pela Universidade Metodista de São Paulo na área de Educação e pós-graduado em Psicanálise pelo Instituto Kadmon de Psicanálise. Atualmente está em processo de conclusão do curso de bacharelado em Filosofia pela universidade Salesiana Dom Bosco.

Atua no mercado de tecnologia desde 1998. Fundador do Grupo Ravel de Tecnologia, Cofundador da Palestras & Conteúdo, sócio da Core Angels (Fundo de Investimento Internacional para Startups), sócio fundador da Agência Incandescente, sócio fundador do Conexão Europa e da Atlantic Hub (Empresa de Internacionalização de Negócios em Portugal).

Atua também como Mentor e Investidor Anjo de inúmeras Startups (onde possui cerca de 30 Startups em seu Portfólio). Além de participar de programas de aceleração, como SEBRAE Capital Empreendedor, SEBRAE Like a Boss, Inovativa (Governo Federal) entre outros.

Palestrando desde 2016 sobre temas, como: Cultura de Inovação, Cultura de Startups, Liderança, Empreendedorismo, Vendas, Espiritualidade e Essência. Já esteve presente em mais de 230 eventos (número atualizado em dezembro de 2020). É conselheiro do ITESCS (Instituto de Tecnologia de São Caetano do Sul), bem como em outras empresas e associações. Lançou em dezembro de 2019 o seu primeiro livro “Vidas Ressignificadas” e em dezembro de 2020 “Do Caos ao Recomeço”.

Construir conhecimento só é possível quando colocamos o aprendizado em prática. O mundo está cansado de teorias que não melhoram a vida das pessoas. Meus artigos são fruto do que vivo, prático e construo.

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