CAPELA SISTINA: DA SABEDORIA À AUDÁCIA

Capela Sistina, será que é realmente possível pensar em Roma ou mesmo na Itália sem lembrar dessa que para mim é uma das mais incríveis obras já elaboradas por mãos humanas? Relembro que há pouco mais de vinte anos foi a primeira vez me vi passeando como um dos milhares de turistas pelo museu do Vaticano, essa incrível obra de Michelangelo. Nesta minha visita a Itália, eu conheci pela primeira vez este que seria meu continente de viagens constantes e de nascimento de empresas que mais tarde eu criaria. A Capela Sistina, localizada no Vaticano, foi construída entre 1473 e 1481 por ordem do Papa Sisto IV, e mais tarde recebeu o nome em sua homenagem. Os artistas mais famosos da época, incluindo Sandro Botticelli, foram convidados para pintar as paredes do local, e o teto também não foi ignorado: um mestre chamado Piermatteo d’Amelia desenhou estrelas douradas no fundo azul. Em 1504 apareceram rachaduras no telhado, que foram cobertas com tijolos. No entanto, o papa Júlio II decidiu decorá-lo novamente. Então, em 1508 o famoso florentino, Michelangelo di Lodovico Buonarroti começou a criar a obra mais importante dele. Desde 1871, a Capela Sistina é o único lugar onde ocorre a eleição do novo papa. De uma de suas janelas uma fumaça branca é liberada anunciando que um novo chefe da Igreja Católica foi escolhido e que em breve será apresentado ao mundo inteiro.

SE TODOS OS CAMINHOS LEVAM A ROMA, MUITO OUTROS LEVAM VOCÊ A CAPELA SISTINA

Como já comentei em outros textos que produzi para o Conexão Europa, tenho como uma das minhas formações Teologia. Por muito tempo, desenvolvi muitas atividades dentro das diversas instâncias da Igreja Católica no Brasil e na Itália. Uma das atividades que desenvolvi com uma das empresas que tenho, foi desenvolver websites para organizações e igrejas espalhadas pelo Brasil. Em um destes serviços, desenvolvemos o site para a Igreja Nossa Senhora do Brasil localizada na Avenida Brasil em São Paulo capital. Quando nos deparamos com uma das solicitações do pároco eu fiquei extasiado com o desafio na ocasião. Replicar no site que estávamos desenvolvendo o teto da igreja que tem como uma das pinturas a réplica da Capela Sistina. Impossível não se emocionar com esse desafio. Foram semanas de trabalho até concluir essa incrível obra. Você pode conferir os afrescos do teto desta igreja buscando no google. A Capela Sistina sempre esteve de alguma forma presente em minha vida. Em outra ocasião já formado em Teologia, (sou Teólogo da Igreja Católica no Brasil com extensão e reconhecimento por Roma), visitei para estudos novamente a Capela Sistina. Nessa visita, tive a oportunidade de ficar na melhor posição para ver os afrescos. Cena eternizada no filme Anjos e Demônios do autor Dan Brown e protagonizada pelo ator Tom Hanks, em que você se deita na nave central, alinhando seu corpo em relação ao teto. Mantendo essa posição com seu corpo e mexendo na sequência em sentido horário, é possível compreender os afrescos e mergulhar no universo de Michelangelo. Bem, sobre a história da Capela Sistina, gostaria de contar alguns segredos.

SEGREDOS DA CAPELA SISTINA QUE NINGUÉM CONTA PARA VOCÊ

Ao contrário da crença popular, Michelangelo não pintou o teto deitado em um andaime, mas em pé, jogando a cabeça para trás. Este trabalho afetou seriamente a saúde do mestre que no início dos trabalhos, em 1508, tinha apenas 33 anos. Desenvolveu uma infecção no ouvido devido à tinta que caía em seu rosto, teve artrite e escoliose. Além disso, devido à falta de iluminação durante o trabalho, Michelangelo desenvolveu uma particularidade: durante um tempo, só conseguia ler levantando os livros acima da cabeça. Michelangelo fez uso da técnica de pintura afresco, muito gesso é aplicado no teto e o artista precisava preencher com desenhos em um dia. Ao contrário da técnica seria à seco, que envolve a pintura sobre o gesso seco, já o afresco permite criar trabalhos que durarão mais. Se a superfície rebocada não fosse preenchida com desenhos, a camada era removida e no dia seguinte uma nova era aplicada. No entanto, alguns dos detalhes das imagens foram criados à seco. Por isso, durante a restauração realizada entre 1980 e 1994, em alguns lugares as sombras das figuras e os olhos se perderam. Acredita-se que Michelangelo criou todo o afresco sozinho. No entanto, os dados obtidos durante a restauração sugerem que o mestre foi auxiliado por pelo menos três pessoas que pintaram os putto (motivos ornamentais constituídos de figuras infantis típicas da arte renascentista) e a imitação de detalhes arquitetônicos. Nas partes laterais das cenas centrais do afresco, Michelangelo pintou 7 profetas de Israel e 5 sibilas, personagens que de acordo com crenças antigas, previam o futuro. No total, eram 10 sibilas e ainda se desconhece por que o artista escolheu apenas 5 delas. De acordo com uma versão, elas simbolizavam diferentes lugares da Terra.

O MESTRE MICHELANGELO TEVE SEU ÁPICE COM A CAPELA SISTINA

O trabalho foi dividido em três etapas. A primeira terminou com o “Sacrifício de Noé” e a segunda com “A Criação de Eva”. Embora, em geral, os afrescos pareçam harmoniosos e, para uma pessoa comum, a diferença não seja muito perceptível, as imagens da “terceira etapa” são um pouco diferentes da primeira e da segunda. O fato é que depois de completar “A criação de Eva”, o andaime foi desmontado e transferido para outra parte da capela, assim Michelangelo teve a oportunidade de ver seu trabalho de baixo. O artista achou que as figuras eram pequenas e embaçadas, então, na terceira etapa, ampliou os personagens e simplificou seus gestos. Para trabalhar em grandes alturas, Michelangelo projetou andaimes especiais que eram presos nas vigas da capela. Estes lhe permitiram trabalhar sem incomodar os que estavam abaixo. Durante o período em que o teto foi pintado, celebravam-se missas no local. O gênio do Renascimento pode contemplar o trabalho dele completo de baixo apenas após a sua conclusão, quando os andaimes foram completamente desmontados. No teto aparecem 343 figuras, além de outros detalhes. As folhas e bolotas que estão nas mãos de alguns ignudi (jovens nus) são consideradas uma homenagem ao Papa Júlio II. O fato é que, no brasão de armas da família Rovere à qual o papa pertencia, aparece um carvalho. Nas lunetas do teto, no espaço abaixo dos arcos sobre as janelas, Michelangelo pintou os antepassados ​​de Jesus. Inicialmente havia 16 lunetas, mas duas delas que eram localizadas na parede do altar foram destruídas pelo próprio mestre para dar lugar a uma das partes mais importantes da composição “O Juízo Final”. Embora geralmente se diga que o fruto proibido era uma maçã, na passagem “Queda do Homem, pecado original e expulsão do Paraíso”, Michelangelo representa a árvore do conhecimento do bem e do mal na forma de uma figueira. Curiosamente, nas partes da direita e esquerda do fragmento, Adão e Eva são representados de forma diferente: após a queda (à direita), seus rostos são desfigurados e distorcidos com uma careta, enquanto antes de comer a fruta eles eram lindos. A propósito, a tentadora serpente é representada como uma mulher.

MICHELANGELO NA CAPELA SISTINA EXTERNAVA A IGREJA QUE ELE ACREDITAVA E A CRITICAVA

Em nenhum lugar da pintura do teto aparece Jesus adulto (talvez ele esteja presente apenas na “Criação de Adão”, onde é pintado como uma criança). A explicação é muito simples. No teto, Michelangelo criou cenas exclusivamente do Antigo Testamento, que prevê a chegada de Cristo, enquanto a história de vida do “Filho de Deus” é descrita no Novo Testamento. Ele aparece no mural do altar “O Juízo Final”, e ao contrário da tradição, sem nenhuma barba. Em 1564, o Papa Pio IV ordenou ao artista Daniele da Volterra que “vestisse” as figuras mais “descaradamente nuas” da cena “O Juízo Final”, que se encontra na parede do altar da capela. O afresco, aliás, foi produzido por Michelangelo entre 1536 e 1541, ou seja, um quarto de século depois de trabalhar no teto. O artista cumpriu as instruções do chefe da Igreja Católica, por isso recebeu o apelido zombeteiro de Il Braghettone, literalmente “o veste as calças”. No entanto, durante a restauração, uma parte das figuras “se despiu”, e hoje podemos vê-las como eram quando foram feitas pelo grande florentino. A imagem de Deus na “Criação de Adão” era absolutamente incomum para a época. Antes de Michelangelo, ninguém o havia pintado antes, muito menos em movimento, já que como regra geral o “Criador” só era retratado alegoricamente na forma de mãos. Os pesquisadores também levantaram várias questões sobre a figura feminina do lado esquerdo de Deus. De acordo com uma das versões, é a Eva e as outras figuras representam os descendentes de Adão e a humanidade em geral. Uma hipótese amplamente conhecida é de que os contornos do tecido em torno de Deus repetem os do cérebro humano e as bordas das figuras das pessoas próximas a ele, suas seções. No entanto, há outra versão, na qual o plano representa o contorno do útero e o véu verde, um cordão umbilical recém-cortado. Os pesquisadores afirmaram que, dessa forma Michelangelo queria mostrar o processo idealizado do nascimento de uma pessoa, o que explica a presença do umbigo no corpo de Adão. Embora virtualmente todos os afrescos de Michelangelo fossem pintados enquanto ele se movia através do telhado e dos arcos, as imagens de Deus foram criadas no final. O artista acreditava que, antes de começar essa figura, ele precisava aperfeiçoar suas habilidades. Na cena de “O Juízo Final”, ao lado de Jesus aparece um dos apóstolos, Bartolomeu, que segurava uma pele esfolada. Acredita-se que Michelangelo fez autorretrato dele para personificar o sofrimento causado pela relutância em trabalhar no afresco. Entretanto, muitos pesquisadores das obras do gênio do Renascimento rejeitam essa hipótese.

VISITAR A CAPELA SISTINA É MERGULHAR NO RENASCENTISMO

Quando visitamos a Capela Sistina, temos a incrível oportunidade de mergulhar no Renascentismo e compreender um pouco deste momento histórico profundo de revoluções artísticas, políticas e humanas. O Renascimento foi um importante movimento de ordem artística, cultural e científica que se deflagrou na passagem da Idade Média para a Moderna. Em um quadro de sensíveis transformações que não mais correspondiam ao conjunto de valores apregoados pelo pensamento medieval. O Renascimento apresentou um novo conjunto de temas e interesses aos meios científicos e culturais de sua época. Ao contrário do que possa parecer, o renascimento não pode ser visto como uma radical ruptura com o mundo medieval, mas sim uma transformação do ser humano e levando ele as reflexões provocadas. Conhecer a Capela Sistina nos leva a refletir sobre o nosso próprio momento de mundo. Hoje, lançamos luzes sobre nossa humanidade e refletimos sobre os fantasmas da ignorância.            

SOBRE O AUTOR

Benício Filho

Formado em eletrônica, graduado em Teologia pela PUC-SP, com MBA pela FGV em Gestão Estratégica e Econômica de Negócios, pós-graduado em Vendas pelo Instituto Venda Mais, Mestrando pela Universidade Metodista de São Paulo na área de Educação e pós-graduado em Psicanálise pelo Instituto Kadmon de Psicanálise. Atualmente está em processo de conclusão do curso de bacharelado em Filosofia pela universidade Salesiana Dom Bosco.

Atua no mercado de tecnologia desde 1998. Fundador do Grupo Ravel de Tecnologia, Cofundador da Palestras & Conteúdo, sócio da Core Angels (Fundo de Investimento Internacional para Startups), sócio-fundador da Agência Incandescente, sócio-fundador do Conexão Europa e da Atlantic Hub (Empresa de Internacionalização de Negócios em Portugal).

Atua também como Mentor e Investidor Anjo de inúmeras Startups (onde possui cerca de 30 Startups em seu Portfólio). Além de participar de programas de aceleração, como SEBRAE Capital Empreendedor, SEBRAE Like a Boss, Inovativa (Governo Federal) entre outros.

Palestrando desde 2016 sobre temas, como: Cultura de Inovação, Cultura de Startups, Liderança, Empreendedorismo, Vendas, Espiritualidade e Essência. Já esteve presente em mais de 230 eventos (número atualizado em dezembro de 2020). É conselheiro do ITESCS (Instituto de Tecnologia de São Caetano do Sul), bem como em outras empresas e associações. Lançou em dezembro de 2019 o seu primeiro livro “Vidas Ressignificadas” e em dezembro de 2020 “Do Caos ao Recomeço”.

Construir conhecimento só é possível quando colocamos o aprendizado em prática. O mundo está cansado de teorias que não melhoram a vida das pessoas. Meus artigos são fruto do que vivo, prático e construo.

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