GERAÇÃO DO TRAUMA

Anos atrás passei por uma experiência na minha vida realmente traumática. Pode até parecer que ao ler a palavra trauma você fique um tanto quanto perturbado, afinal, até compreender o que é um trauma em muitos momentos fica complicado.

Longe da definição tradicional do que é trauma, o que precisamos entender mesmo é o que nos transforma enquanto seres humanos.

A palavra trauma muitas vezes é utilizada para descrever uma lesão causada por uma força externa devido a um acidente, violência ou auto agressão. É categorizado por mecanismos de lesão que incluem um trauma penetrante, contuso ou a sua combinação.

Se essa é a definição tradicional do que é trauma, estou aqui bem mais preocupado em olhar para outro prisma o que estou chamando de a Geração do Trauma.

O que estou realmente interessado e quero compartilhar com você é o que chamamos de traumas psicológicos com sequelas emocionais. Esses sim, são o objeto deste texto e da minha vivência anos atrás.

Os traumas psicológicos deixados por uma experiência que causou imensa dor e sofrimento ao traumatizado que também pode ser chamado de evento traumático, é de tal magnitude que afetam profundamente o comportamento, pensamento e sentimento do indivíduo por ele afetado. 

Bem, são sobre estes eventos traumáticos que quero compartilhar com você uma experiência que vivenciei em minha própria vida e como estou olhando a humanidade neste momento com um evento cataclísmico como a pandemia que está criando o que estou chamando de Geração do Trauma.

Convido você a vir comigo neste mergulho.

MEUS TRAUMAS TAMBÉM SÃO OS SEUS

São muitas as situações que precisamos ter coragem para continuar vivendo. Sim, é preciso ter coragem, pois, como diziam na antiga Grécia, coragem é a firmeza de espírito para enfrentar uma situação emocional ou moralmente difícil.

Quando é preciso ter coragem, poucos avançam à próxima fase.

Eu realmente estava precisando de coragem em minha vida, pois estava diante de uma situação em que ano a ano me sentia muito distante da pessoa que por quase quinze anos eu estava casado.

Não acredito em alguém que se casa pensando em separar isso é uma loucura total. E eu sempre acreditei que ficaria casado pela vida toda.

Se existe algo que aos poucos temos a capacidade de colocar em xeque um relacionamento de muitos anos é a ausência de planos em comum. Como seres humanos, cada um de nós evolui ou deveria evoluir.

Em um relacionamento é bastante relevante que tanto a evolução individual seja permitida como os planos em conjunto sejam criados.

Claro, tivemos muitos planos em comum e meus filhos são com certeza minha maior e melhor obra. Mas por muitos desdobramentos e erros que os dois lados cometeram, infelizmente, hoje não mais estamos casados.

Sim, infelizmente, pois em um relacionamento com filhos o único cenário bom é quando os dois que desejaram aquelas crianças estão juntos. Todos os demais cenários são ajustes ao cenário que era o ideal.

Lógico, que é possível viver bem, demonstrar amor e respeito aos filhos e educá-los de forma conjunta mesmo não estando mais casados, mas jamais deve ser ignorado o desafio que é viver desta forma.

GERAÇÃO DO TRAUMA: RECONSTRUINDO UMA VIDA

Claro que precisamos de coragem para iniciar uma mudança. Mas jamais subestime a necessidade de ajuda. Amigos, família, terapia e autoconhecimento são pontos que auxiliam neste processo de mudança, mas mesmo que você esteja muito bem-preparado ou pelo menos se julgue preparado dificilmente irá compreender todos os traumas que está vivendo.

Foram mais de dois anos depois de iniciar este processo e estou dizendo isso contando do momento que realmente iniciei uma nova fase não mais morando junto com minha família.

Este com certeza foi o momento mais complicado, pois de um dia para o outro, tudo que era real foi desmontado. Não existiam mais as rotinas do dia a dia, tudo precisava ser reconstruído.

Desmontar é extremamente fácil, reconstruir leva muitos anos. Foram inúmeras dificuldades, crises e muita terapia com a proximidade de amigos, filhos e família para começar a enxergar tudo que eu estava vivendo.

Comecei a perceber os traumas muitos meses depois e enxergá-los como aprendizado e maturidade foi também um processo. Lembro quando meu terapeuta dizia para mim que no momento que eu enxergasse de fora o que eu havia vivido, começaria a entender aonde poderia chegar.

Claro, chegar em um novo lugar aprendendo a viver o momento presente. Como é difícil viver o que temos sem a angústia e agonia de querer encontrar a paz e a felicidade onde não existe.

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O QUE TEM VALOR ESTÁ PERTO DO CORAÇÃO E AO ALCANCE DOS OLHOS

Um dos maiores aprendizados foi perceber que o que realmente importa em minha vida tem na verdade pouco ou nenhum valor econômico e apenas pode ser medido e percebido se realmente eu estiver presente.

Corpo, alma e coração enxergando o cataclisma de sentimentos vividos no dia a dia proporcionam a oportunidade de perceber o que importa. Um sorriso dos filhos, um filme assistido no sofá, um livro lido, textos escritos, cozinhar o que amamos comer, uma taça de vinho e o prazer de contemplar o belo e a natureza.

Estes aprendizados, já foram tatuados em mim e não quero jamais perdê-los. Tudo tem sentido desde que seja percebido e este tem sido meu exercício diário.

A GERAÇÃO DO TRAUMA

Minha experiência pessoal é um fragmento no universo diante do trauma em que nossa geração está sendo exposta. Mas ela não pode ser reduzida uma vez que no trauma vivido, podemos perceber o lugar que podemos chegar.

A pandemia gerou um enorme desdobramento nos sentimentos, relações familiares e experiência humana que fazemos ao longo da vida. De alguma forma, desde o início desta pandemia, perdemos uma parte da nossa humanidade.

Nossa capacidade de nos relacionarmos foi muito reduzida, sendo alterado o olhar de carinho ao distanciamento social como regra. Deixamos de acreditar no outro porque sem exceção na invisibilidade do vírus ficou evidente a clareza e frieza das relações.

Como não enxergamos quem está contaminado, deduzimos e, foi necessário que assim fosse, nos distanciarmos e protegermos. A morte foi a única certeza que tivemos com a possibilidade de ser contaminado com o vírus.

Os traumas psicológicos que a humanidade como um todo tem sofrido jamais poderão ser compreendidos sem que consigamos olhar mais a frente como os relacionamentos humanos serão impactados. 

Será que compreenderemos melhor o valor do feminino em nossa vida?

Conseguiremos evoluir na percepção do amor como pilar dos relacionamentos?

Compreenderemos que os demais seres vivos têm a mesma importância que a nossa ou ainda continuaremos exaurindo à terra e os demais seres como exploradores cruéis?

Superaremos a sociedade dos pré-conceitos para a compreensão do ser humano como único e, ao mesmo tempo, igual a todos os outros?

Quanta evolução pode ser possível a partir do trauma que estamos vivendo, mas ainda não é possível compreender aonde iremos chegar, pois, somos agentes históricos.

No livro Do Caos ao Recomeço fiz com Renata Marinho reflexões sobre a pandemia, a leitura dele pode ajudá-lo a criar pistas por onde podemos caminhar, mas como digo o tema é muito profundo e tenho a certeza que não cheguei a tocá-lo.

VOCÊ NÃO ESTÁ SOZINHO, SEUS MEDOS TAMBÉM SÃO OS MEUS

Você não está sozinho, a Geração do Trauma também é a minha geração. Quando falo sobre geração do trauma coloco todas as gerações sejam elas Y ou Z (ou outras) no mesmo momento e vivendo cada uma do seu jeito os mesmos desafios e possibilidades de aprendizados.

Ter medo é bom, pois traz ao nosso consciente a necessidade de perceber o presente colocando em alerta todo o sistema límbico do cérebro.

Atentos, podemos enxergar o que estamos passando. Assim, conscientes, temos a chance de aprender, crescer e continuar.

Você não está sozinho, estamos juntos nesta jornada.

Se sentir que precisa conversar sobre isso, saiba que posso ajudá-lo.

SOBRE O AUTOR

Benício Filho

Formado em eletrônica, graduado em Teologia pela PUC-SP, com MBA pela FGV em Gestão Estratégica e Econômica de Negócios, pós-graduado em Vendas pelo Instituto Venda Mais, Mestrando pela Universidade Metodista de São Paulo na área de Educação e pós-graduado em Psicanálise pelo Instituto Kadmon de Psicanálise. Atualmente está em processo de conclusão do curso de bacharelado em Filosofia pela universidade Salesiana Dom Bosco.

Atua no mercado de tecnologia desde 1998. Fundador do Grupo Ravel de Tecnologia, Cofundador da Palestras & Conteúdo, sócio da Core Angels (Fundo de Investimento Internacional para Startups), sócio-fundador da Agência Incandescente, sócio-fundador do Conexão Europa e da Atlantic Hub (Empresa de Internacionalização de Negócios em Portugal).

Atua também como Mentor e Investidor Anjo de inúmeras Startups (onde possui cerca de 30 Startups em seu Portfólio). Além de participar de programas de aceleração, como SEBRAE Capital Empreendedor, SEBRAE Like a Boss, Inovativa (Governo Federal) entre outros.

Palestrando desde 2016 sobre temas, como: Cultura de Inovação, Cultura de Startups, Liderança, Empreendedorismo, Vendas, Espiritualidade e Essência. Já esteve presente em mais de 230 eventos (número atualizado em dezembro de 2020). É conselheiro do ITESCS (Instituto de Tecnologia de São Caetano do Sul), bem como em outras empresas e associações. Lançou em dezembro de 2019 o seu primeiro livro “Vidas Ressignificadas” e em dezembro de 2020 “Do Caos ao Recomeço”.

Construir conhecimento só é possível quando colocamos o aprendizado em prática. O mundo está cansado de teorias que não melhoram a vida das pessoas. Meus artigos são fruto do que vivo, prático e construo.